M U L T I C U L T U R A S. C O M

 

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© Alberto Oliveira Pinto

Introdução ao Kimbundu

1 – O Kimbundu e os grupos linguísticos africanos; o grupo Bantu, inserido na família Congo-Cordofaniana

A grande maioria dos linguistas está de acordo em como, no Continente Africano, as línguas se dividem por quatro grandes famílias: a Afroasiática (inclui as línguas Berberes do Norte de África, as Cushitas da Etiópia e da Somália e ainda as semitas, abrangendo o hebreu, o árabe e o aramaico), a Nilo-Sahariana (constituída pelo Sudanês, o Sahariano e o Songhai), a Niger-Congo ou Congo-Cordofaniana (inclui numerosos grupos predominantes para sul do Sahara, de que destacamos os Bantu, para sul do Equador) e Khoisan (línguas dos Pigmeus da floresta tropical do Congo Democrático e línguas faladas “com estalinhos” pelos povos !Kung, vulgarmente conhecidos como Hotentotes, Bosquímanos ou, em Angola, Mucancalas)[1]. O Kimbundu é uma língua do grupo Bantu, pertencendo à família linguística Niger-Congo ou Congo-Cordofaniana. é plural de muntu, radical comum a quase todas as línguas do grupo. Muntu quer dizer indivíduo, pessoa, ser humano, significando, portanto, bantu, indivíduos, pessoas ou seres humanos. Em Kimbundu, a palavra mutu significa pessoa, sendo o seu plural, atu, pessoas, gente. Pelos exemplos acima indicados, podemos desde já concluir que a principal característica das línguas Bantu é o facto da flexão – isto é, a formação do género, feminino ou masculino, e do número, singular ou plural – se fazer por meio de prefixos.

2 – Nações Bantu de Angola; diferenças dialectais nos subgrupos mbundu; o kimbundu de Ambaka

O território de Angola situa-se quase exclusivamente dentro da área de difusão das línguas bantu. São nove as nações bantu de Angola, correspondendo a cada uma delas uma língua diferente:

 

Nação Idioma
Bakongo Kikongo
Mbundu (ou Ambundu) Kimbundu
Lunda-Tchokwe Tutchokwe
Ovimbundu Umbundu
Ganguela Tchiganguela
Nhaneka-Humbe Lunhaneka
Herero Tchiherero
Ovambo Ambo
Donga Xindonga

De todas estas nações, só os territórios dos Mbundu, dos Ovimbundu e dos Nhaneka-Humbe se circunscrevem ao espaço angolano. Os das outras são todos atravessados pelas fronteiras políticas delineadas após a Conferência de Berlim de 1885. Os Bakongo, por exemplo, repartem-se pelos estados de Angola, Congo Democrático e Congo Popular, os Lunda-Tchokwe, cujo território é atravessado pelo rio Kassai, dividem-se entre Angola e o Congo Democrático, na província do Katanga (ex-Shaba), os Ganguela entre Angola e a Zâmbia e, finalmente, os Herero, os Ambo e os Donga, entre Angola e a Namíbia.

Cada uma destas nações é dividida por diversos subgrupos, a cada um dos quais corresponde uma variante dialectal. A nação Mbundu reparte-se por 11 subgrupos (ou etnias), disseminados pelas províncias de Luanda, Bengo, Malanje, Kuanza Norte e ainda pequenas bolsas no Uíge e no Kuanza Sul. São, portanto, 11 as variantes do Kimbundu, consoante a difusão geográfica dos 11 povos que constituem esta nação: Ngolas, Dembos, Jingas, Bondos, Bângalas, Songos, Ibacos, Luandas, Quibalas, Libolos e Quissamas.

O Kimbundu, à semelhança das outras línguas bantu, não tem tradição escrita. Os primeiros a escrevê-la e a estudar-lhe as regras gramaticais foram os missionários capuchinhos e jesuítas de Ambaka. Fizeram-no com o fim de ensinar a língua portuguesa e o catecismo aos africanos. Foram eles que introduziram os princípios ortográficos ainda hoje vigentes.Nos séculos XIX e XX surgem estudiosos do Kimbundu, de onde destacamos Héli Chatelain, Cordeiro da Matta, António de Assis Júnior e Óscar Ribas[2].

3 – Ortografia e fonologia

O Kimbundu deve sempre grafar-se com escrita sónica. As cinco vogais, a, e, i, o, u, são todas abertas. Antes de outra vogal, ie u funcionam como semi-vogais.

mbcomo em mbambi, “gazela”, “frio”

nvcomo em nvula, “chuva”nd como em ndandu, “parente”

ngcomo em ngiji, “rio”

nj como em njila, “pássaro”, “caminho”

h como em hima, “macaco”, distinto de ima, “coisas”[3]

O m e o n servem para nasalar, daí que tenham surgido, por exemplo, vocábulos como Angola derivado de ngola (rei) ou embondeiro derivado de mbondo (árvore).

O h é sempre aspirado, como em henda (graça, misericórdia).

O r é sempre brando e pode ser trocado por d ou, menos frequentemente, por l. Por exemplo, kitari ou kitadi (dinheiro), ditadi ou ritari (pedra); kudia ou kuria (comer); kolombolo ou koromboro (galo).

O k substitui sempre o q da língua portuguesa, bem como o c antes de a, o e u.

O g nunca tem o valor de j, mesmo antes de e ou i. Ndenge (mais novo) e ngindu (trança) lêm-se ndengue e nguindu.

O som nh deve, em nosso entender, escrever-se como em português, embora haja quem escreva ni ou ny. Por exemplo, dikanha, dikania ou dikanya (tabaco).

Não vemos, de resto, necessidade do emprego do y em Kimbundu, embora certos autores o usem enquanto prefixo para fazer o plural de ki. Em tal caso sugerimos a grafia i (V. Infra).

4 - Classes nominais e concordâncias

Nas línguas bantu, os nomes substantivos ordenam-se em classes ou grupos consoante os pares de prefixos que definem os singulares e os plurais. O Kimbundu tem 10 classes nominais[4][4]:

CLASSES SINGULAR PLURAL EXEMPLO
mu a mutu, atu – pessoa(s)
mu mi mutue, mitue – cabeça(s)
ki i kima, imacoisa(s)
ri ma ritari, matari – pedra(s)
u mau uta, mauta – arma(s)
lu malu lumbu, malumbu – muro(s)
tu matu tubia, matubia – fogo(s)
ku maku kuria, makuria – comida(s)
-- ji mbiji  jimbiji – peixe(s)
10ª ka tu mona tuana – criança(s)

Estes prefixos absolutos, que designam a classe a que o nome pertence e o número em que se encontra, distinguem-se dos prefixos concordantes, que enumeraremos consoante as classes e o número a que correspondem.

CLASSE SINGULAR PLURAL
ua a
ua ia
kia ia
ria ma
ua ma
lua ma
tua ma
kua ma
ia --
10ª ka tua

A concordância faz-se, em kimbundu, através do prefixo do substantivo que inicia a frase e lhe serve de sujeito.

Exemplifiquemos:

Mubika uami uakala umoxi / Abik’ami akala atatu

O meu escravo era um / Os meus escravos eram três

Mukolo uami uakala umoxi / Mikolo iami iakala itatu

A minha corda era uma / As minhas cordas eram três

Kialu kiami kiakala kimoxi / Ialu iami ikala itatu

A minha cadeira era uma / As minhas cadeiras eram três

Rilonga riami riakala rimoxi / Malonga mami makala matatu

O meu prato era um / Os meus pratos eram três

Uta uami uakala umoxi / Mauta mami makala matatu

A minha arma era uma / As minhas armas eram três

Lumbu luami luakala lumoxi / Malumbu mami makala matatu

O meu muro era um / Os meus muros eram três

Tubia tuami tuakala tumoxi / Matubia mami makala matatu

O meu fogo era um / Os meus fogos eram três

Kuria kuami kuakala kumoxi / Makuria mami makala matatu

A minha comida era uma / As minhas comidas eram três

Mbiji iami iakala imoxi / Jimbiji jami jakala jitatu

O meu peixe era um / Os meus peixes eram três

Kamona kami kakala kamoxi / Tuana tuami tuakala tutatu

A minha criança era uma / As minhas crianças eram três[5]

[1] Para mais desenvolvimentos consultar: J.H. Greenberg, The Languages of Africa, 1963, The Hague; David W. Phillipson, African Archaelogy, Cambridge University Press, 1998, pp. 5-8; Mário António F. Oliveira, Reler África, Coimbra, Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, 1990, pp. 69-122.
[2]  V. bibliografia.
[3]  Exemplo retirado de Mário António F. Oliveira, ob. cit., p. 113.
[4]  P. Domingos Vieira Baião, O Kimbundu sem Mestre, Porto, Imprensa Moderna, 1946, p. 22.
[5]  Idem, p. 26.

Menino pobre de Luanda, com o seu papagaio de papel, desenho de Neves e Sousa.
Menino pobre de Luanda, com o seu papagaio de papel, desenho de Neves e Sousa.


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Atualização: 12 09 2014

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