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| Extracto da aula de 5 de Janeiro de 2002 no CEM"Foto 330 - Kalamba ka etho". AOP - Convém observarmos de perto alguns elementos
utilizados pelos tchokwe no cesto de adivinhação. Uma das práticas utilizadas
pelos ngangas (adivinhos) é a adivinhação mediante uma consulta que é
feita por uma pessoa (cliente) que está interessada numa intervenção contra um
mal (doença), seja ele físico ou social. Vai-se consultar o sacerdote e este
utiliza vários processos de adivinhação, geralmente com objectos que simbolizam
qualquer coisa. O Pensador é hoje uma figura emblemática de Angola, que aparece inclusive na filigrana das notas de kwanza, a moeda nacional. É considerada uma obra de arte nativa fidedignamente angolana. Não o discuto, mas parece-me que, à semelhança de qualquer figura emblemática de um povo — como, por exemplo, o "Zé Povinho" em Portugal, o "John Bull" na Inglaterra ou o "Tio Sam" nos Estados Unidos —, o Pensador tem origem numa "tradição inventada" — como diria Hobsbawm — ou "convencionada". Na verdade, os primeiros pensadores angolanos foram esculpidos nas oficinas do Museu do Dundo em data posterior a 1947. Nesse ano, por iniciativa da Diamang, a então Companhia dos Diamantes da Lunda, foi criado na povoação do Dundo um museu de arte tradicional e de colecções etnográficas e arqueológicas. Os funcionários da Diamang, na maioria belgas e portugueses, chegaram a contratar artesãos locais e instalaram-nos em oficinas, incentivando-os a esculpir na madeira ou a modelar no barro figuras que fossem genuinamente "nativas", mas ao mesmo tempo interferindo no sentido de aproximar as formas de uma estética que julgavam ser mais convencional no sentido ocidental. Houve casos, por exemplo, de figuras míticas africanas cujos pés, seguindo a tradição, eram grandes e às quais foi reduzido o tamanho dos pés, por razões "de ordem estética". Creio que a invenção do Pensador angolano ficou a dever-se a um caso destes. Pegando em figuras do ngombo, o cesto de adivinhação dos lunda-tchokwe, os europeus induziram os africanos a criar uma figura que, de algum modo, se assemelhava a uma estatuária de origem grega, particularmente cara aos escultores europeus renascentistas, como Leonardo Da Vinci ou Rodin: o Pensador.
Observemos agora algumas figuras divinatórias do cesto do tahi (adivinho
tchokwe) que me parecem estar na origem do Pensador. Se virmos o que qualquer
uma delas simboliza, verificamos que, curiosamente, nenhuma delas alude à
atitude introspectiva, pelo menos numa acepção grega clássica. "Fotos 330 e 332/332A - KALAMBA KA ÊTHO - Figura estilizada também designada por lemba, kachakulu e kuku wa lunda (ascendente masculino). Figura antropomórfica sentada em posição típica de sepultura (mãos segurando a cabeça e cotovelos apoiados nos joelhos); antepassado paterno ou materno que personifica o culto ancestral. Quando este espírito provoca doenças exige-se um ritual adequado para se conseguir a cura. Não pode faltar a cerveja de palmeira e o rufar de tambores. É bom pressagio aparecer com lukano (pulseira) e outros símbolos de realeza. É usado como amuleto e lembra ao consulente que deve respeitar os parentes falecidos e as tradições." Esta é a figura que, logo à primeira vista lembra o pensador, mas, como vêm, tem a ver com a figura dos mortos (mais uma vez os antepassados) na sepultura.
"Fotos 331 e 333/333A - KÁTWAMBIMBI - Figura que representa o estado de lamentação (carpideira). O seu aparecimento vaticina infortúnio se junto dela não surgir outra peça que amenize esse prognóstico. Personagem figurada com as mão à cabeça, está, relacionada com feitiços mbimbi, pelo que o adivinho previne o cliente contra injúrias, aconselhando o uso de amuletos para defesa principalmente das crianças."
"Fotos 334/334A SEICHIMU - Figura estilizada também designada por kalamba e kuku wa pwó (ascendente feminino), com uma das mãos levadas ao queixo e a outra ao longo do corpo, mais precisamente sobre o ventre. Personifica o estado de apreensão, agonia e receio de fantasmas; vaticina mal eminente e pode indicar que o consulente não tem sorte porque esqueceu os seus antepassados (paternos e matemos) ou que uma herança não foi bem repartida pelos seus descendentes. Se a peça aparecer de cabeça no meio das outras, é sinal de vida, mas se surgir deitada ou de pés aumentam as preocupações de uma futura mãe. Junta ao símbolo upite (riqueza) indica divida ou roubo; com chota (casa do povo) prevê prejuízos nas casas, no gado ou nas culturas."
"Fotos 335/335A - CHIKUNZA - Figura de mascarado representada com as mãos sobre o ventre e a cabeça com um prolongamento cónico, lembrando um comprido corno. Símbolo ancestral ligado às práticas da iniciação, da caça e de outros rituais masculinos. Se aparece corno kuku wa pwó favorece a natalidade. Chikunza é também um espírito mau que torna as pessoas possessas. Como amuleto é posto no cinto das mulheres ou no arco e na espingarda dos caçadores." Intervenção da assistência - estava-me agora a recordar que na literatura portuguesa, ao contrário do que se diz na gíria, eram utilizados os chifres como símbolo da fertilidade. Era a alusão à luta entre os veados que ganhava aquele que tinha os cornos mais fortes. Hoje em dia o conceito é o contrário. AOP - Sim, o corno está sempre ligado à fertilidade. Dois investigadores trabalharam sobre os Yaka, um foi o Devish, da Bélgica, que investigou os Yaka no território do antigo Congo Belga e o outro foi o Mário Milheiros que trabalhou os do território angolano. O Milheiros, encontrou, entre algumas dessas máscaras usadas pelos rapazes nos ritos de iniciação, máscaras com cornos mas não sei o que elas querem dizer. Creio que ali estão nesse sentido universal do corno enquanto símbolo de fertilidade.
"Fotos 336/336A - MBATE - Figura de homem e mulher unidos; o seu aparecimento anda ligado ao sexo e a casos de infidelidade do homem ou da mulher. Pode anunciar ao consulente descendência, questões resultantes de alembamento (prémio da noiva) não satisfeito, ou lembrar compromissos entre duas pessoas."
"Fotos 337/337A - MIKANA - Estilização representando três, quatro ou cinco figurinhas em fila indiana, sobre uma base comum. Saindo com Njia (caminho), vaticina o mal apanhado em viagem, ou proveniente de coisas que transportou; com Upite (riqueza), bom prestígio, e com Tchilôwa (feitiço), é fatídico. Lembra ao viajante que deve respeito aos ídolos que encontrar no seu caminho e que só se pode abordar o feiticeiro quando este estiver sozinho, longe da povoação."
"Foto 338 - KAFUMBA - Figura de mulher grávida. Recomenda a construção de um altar próprio e o uso de amuletos propícios há natalidade como jinga, chisola ou ruemba, para evitar espíritos de mulheres que faleceram durante o parto." NOTA:Todas as imagens e as suas legendas são extraídas de: FONTINHA, Mário - Ngombo (Adivinhação) Tradições do Nordeste de Angola (v. infra Bibliografia).
BIBLIOGRAFIA:
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