Associações em Angola
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Estudos Angolanos
Alberto Oliveira Pinto
Carlos Alberto de Jesus Alves
Associações em Angola
Carlos Mira Lopes

Elisabeth Vera Cruz, Universidade Lusófona.

ELIZABETH CEITA VERA CRUZ, de nacionalidade angolana, é Licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa; fez a Pós-Graduação em Sociologia da Religião, e é Mestre em Antropologia Cultural e Social e Sociologia da Cultura pela FCSH da Univ. Nova de Lisboa. Tem exercido a docência em várias Universidades, entre as quais a Univ. Nova de Lisboa, e actualmente lecciona na Univ. Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Publicou Sete Vozes, LIDEL, Lisboa 1995 e Deserto de Emoções, Lisboa-Luanda 2001 (no prelo), para além de colaboração dispersa em revistas da especialidade, bem como na imprensa.

As Associações em Angola: resistência e ambiguidades

© Elizabeth Ceita Vera Cruz

No seu trabalho sobre Movimentos Associativos na África Negra, o Prof. Silva Cunha destaca três tipos de associações, a saber: associações místico-religiosas, associações com fins materialistas ou cooperativistas e associações com fins políticos (Cunha: 1956).

Segundo o autor, as duas primeiras já existiam nas «sociedades negras primitivas» (Ibid.: 7); as segundas tinham carácter profissional enquanto as primeiras tinham — ou tiveram — um carácter político, primitivamente. No período colonial, outras foram surgindo «de base étnica, que tentam agrupar com fins de previdência e assistência imediatos todos os elementos da mesma tribo» (Ibid.: 8). As associações com fins políticos, produto da Europa, são constituídas por «partidos políticos de negros» (Ibid.: 8) entretanto formados em África. Para Silva Cunha, os factores que estão na origem dos movimentos sociais estudados são:

«a) transformação em curso dos sistemas económicos tradicionais;
b) a perda de crenças religiosas sem que lhes corresponda a conversão real e profunda às religiões ensinadas pelos colonizadores;
c) a transformação da sociedade familiar e a sua crescente instabilidade;
d) a destruição das estruturas políticas;
e) os obstáculos opostos à integração dos nativos nas sociedades dos colonos;
f) o desejo de compensar a falta de segurança individual, proveniente da perda das crenças tradicionais e da destruição das estruturas familiar e tribal;
g) o desejo de compensar uma situação de inferioridade social
» (Ibid.: 48-50).

Diferentes são os tipos de associações existentes, que podem ir dos sindicatos e cooperativas, passando pelas associações (em geral) e pelos grupos informais. Para além da natureza específica de cada uma delas, falar-se de associações no período anterior ao 25 de Abril até à independência significa desde logo a ausência de sindicatos, pela carga não só reivindicativa como política que lhes estava subjacente. Assim, restam os outros três tipos, sendo que as cooperativas, à semelhança dos sindicatos, tinham como objectivo o progresso material e laboral, mas também cultural e educativo, enquanto os grupos formais são normalmente considerados voláteis, tendo uma natureza efémera e muito restrita (cabe neste grupo tudo o que não se enquadre nos já referidos). Quanto às associações, estas têm objectivos essencialmente culturais, suficientemente vastos onde é possível inscrever igualmente a educação.

No presente caso interessam-nos as associações, mercê do papel que as mesmas tiveram ao longo do período colonial. É assim que, no que diz respeito às associações que vão ser objecto da nossa atenção o destaque vai para a Liga Nacional Africana porquanto esta acabou por plasmar as reivindicações dos nativos angolanos no que diz respeito à sua identidade, por via do progresso material e laboral, cultural e educativo, não deixando de parte o carácter recreativo de que também se revestia, como se pode perceber através de leitura da revista Angola, órgão da Liga. Mas as sociedades populares angolanas descritas por Óscar Ribas, ainda que com (um) carácter embrionário ou talvez diria mais "popular" relativamente ao da Liga, não deixaram de ser importantes (e não somente na tomada de consciência dos nativos), na medida em que para nós estas representaram e tipificaram a sociedade dicotomizada que era a angolana (e todas as outras colonizadas), motivo/razão da criação e sucesso das mesmas. O pendor identitário marcou indelevelmente a trajectória das mesmas e, deste modo, a questão nacionalista.

A emergência das elites nativas: tradição e modernidade: As sociedades populares angolanas

«São três, os tipos que caracterizam as sociedades populares angolanas. Em Luanda, onde, pelo seu maior desenvolvimento cultural, mais se acentua o associativismo nativo, instituíram-se as seguintes espécies de associação: recreativo-espirituais, espirituais e materialistas» (Óscar Ribas: 1965: 27).

Assim começa Óscar Ribas a obra sobre associativismo e recreio, "Izomba", onde o autor traça uma panorâmica das mesmas, através da caracterização e descrição dos seus objectivos e associados. Como se pode desde logo entender, estas associações (sociedades populares angolanas) foram/eram constituídas essencialmente por e para nativos, apesar de não ter «apenas gente negra mas também mestiça. Até europeus, na falta dos clubes actuais, nela se comprazeram» (Ibid.: 27). No que diz respeito às sociedades recreativas, paralelamente à assistência prestada, «dedicavam-se estas sociedades à dança» (Ibid.: 27), sendo que estas associações estavam organizadas segundo um regulamento interno, onde as sanções assumiam papel de destaque, pois era geralmente a «coibição de dançar» (Ibid.: 29), a alma mater das associações recreativas e dos seus associados, o elemento aglutinador das mesmas. Mas se por um lado as sanções eram reguladoras, o aspecto aglutinador já referido constituía sem sombra de dúvida um dos pilares da mesma — é preciso não esquecer que era/foram as (nas) associações que de um modo mais ou mesmo directo participaram na emergência e cristalização de uma elite urbana angolana, elite essa que por via destas mesmas associações acabavam por divulgar e durante um tempo puderam preservar (Ibid.: 29) os valores da «sociedade e cultura nativa» — tal é o caso do género musical, a massemba, das músicas em quimbundo e da indumentária feminina. A lista das várias associações (recreativo-espirituais), dá disso conta — emergência da/ duma elite nativa através da referência a alguns dos seus fundadores, boa parte destes funcionários públicos. A mais antiga das associações referida por Ribas data de 1900 (sociedade dos Quipacas), indo as datas até 1945. Relativamente às sociedades espirituais, a referência mais antiga é de 1925, e talvez a mais célebre a "Tristeza Carmona, Alegria Craveiro Lopes" (Ibid.: 34), cuja promotora foi a não menos célebre Maria Esquerquenha, popularizada numa música de Teta Lando. Ainda segundo Ribas, de entre as sociedades mutualistas que se encontram até os anos 40 do século XX, as mais antigas remontam ao século XIX (por volta de 1880). Quanto às sociedades assistenciais estas eram exclusivamente femininas. Talvez por isso a assistência das mesmas era «espiritual: visitas a doentes, (...), condolências a família, celebração da missa de sufrágio» (Ibid.: 30). A importância disso reflecte-se não só na assistência, mas igualmente e sobretudo (no presente caso) nas manifestações rituais que acompanhavam estas celebrações.

Etnografia e "folclore"

Numa obra de carácter etnográfico em que o autor busca a «alma dos negros» — questão aliás que atravessa toda a literatura ficcional e ensaística colonial —, Serra Frazão (de seu nome), um antigo funcionário colonial, destaca a existência de associações secretas entre os negros, começando por dizer que estes não têm/tinham religião. É ainda o mesmo autor que refere que a sua não religiosidade e sim superstição é que poderá estar na base por um lado do surgimento das associações, por outro, do seu carácter secreto. Irmanados estes dois vectores, fácil é, depreende-se da leitura, verificar-se a utilidade das mesmas: esconjurar o medo (dos malefícios das almas do outro mundo), e proteger-se contra eventuais faltas cometidas contra os membros da comunidade. No relato que faz da associação dos "Homem-Leões", Serra Frazão conclui «que esta associação secreta tinha por fim a defesa comum da tribo; já que havia associações de defesa como havia as do ataque, e outras que eram de mera assistência mútua» (Ibid.: 105). A circuncisão, também ela é referida não só como tendo mas igualmente como resultando de algo de secreto das mesmas. De entre os vários ensinamentos cívicos e morais que integram o ritual, as tradições, a história, os feitos (guerreiros), «também os mentores lhes explicam a maneira de tratar com as autoridades, a argumentação que devem opor às suas determinações, a fim de se poderem conservar como cidadãos da sua terra, sem incorrerem na alçada das leis portuguesas» (Ibid.: 123). Ora o interesse de Serra Frazão reside fundamentalmente no discurso do mesmo — visivelmente euro- e etnocêntrico que faz dos angolanos (entenda-se, negros) seres embrionariamente humanos —, discurso esse determinante na estrutura da sua obra já que o autor confunde associação com o carácter secreto de alguns rituais (por isso confunde associação com rito/ritual) de que o mesmo destaca exactamente o secretismo, para com isso afirmar que os negros são supersticiosos, sendo a superstição o que os impele a associar-se.

A Liga Nacional Africana: esboço de uma trajectória

Se as três faces da Liga são a social, a educativa e a recreativa, a leitura de Angola, revista mensal de doutrina e propaganda instrutiva cujo primeiro número remonta a 1930, permite que se fique com uma visão não só de quem eram os seus sócios, mas também quem representava a Liga Nacional Africana, qual o seu objectivo (este último claramente exposto pelo Cónego Manuel das Neves, Presidente em exercício da Liga aquando do seu XVII aniversário, onde o mesmo prometia na sua alocução «outras realizações em curso para melhoria não só da vida associativa como intelectual dos africanos cujos interesses a "Liga" se propôs defender». Os sócios da Liga Nacional Africana contavam-se entre a elite de Angola, entre brancos, negros e mestiços. Funcionários públicos na sua grande maioria, eram cultores do saber em que pontuavam as artes e a literatura. Ainda que oficialmente defensores da mãe pátria — ou talvez por isso mesmo —, é possível entrever-se no seu discurso sobretudo o amor pela sua terra, pelo seu chão. É assim que a linguagem, ainda que colonial — ideologicamente preconceituosa, em que a colectividade (a Liga) surge como constituindo um mundo à parte —, reflecte preocupações que dizem respeito ao progresso da colónia (Angola) e das suas gentes (os indígenas), de que boa parte era originária. À palavra nativo e/ou indígena, associava-se estoutra: a dos deserdados. Expediente ou não, o certo é que os artigos mais incisivos são de um modo geral assinados com pseudónimo. Tais são os casos de "Lumenção" e "Abafejo", onde a valorização dos indígenas assume especial destaque, sendo que a revista vai ao longo dos tempos assumindo mais claramente o seu «sentido de missão», por exemplo quando reclama a necessidade duma imprensa «nossa», e onde se diz a dado momento do artigo que «é lamentável averiguar-se que entre nós, primitivos e ingénuos, haja quem, obcecadamente, queira inculcar certas ideias exigindo que elas sejam encaradas e resolvidas pelos outros da maneira como eles as encaram, sem atender a factores de vária ordem e aos "prós" e "contras" a que tais ideias estão, geralmente, subordinadas. (...) Colaboremos, pois, com ela para a realização da ideia que preconizamos a Imprensa Angolana». A partir de meados da década de 50 e ao longo da década seguinte o tom do discurso foi-se rarefazendo, passando de algum modo a literatura — na página dedicada à poesia e aos poetas angolanos e mesmo a alguma prosa — a ser a via da acusação, do libelo, da resistência. A isso não é alheio o início da luta armada, a revogação do Estatuto do Indigenato e, naturalmente como correlato, a censura e o cerco cada vez mais apertado que entretanto se vai fazendo sentir. Aquilo que parece um paradoxo — de paradoxos foi a colonização feita — a aparente institucionalização da cidadania igual para todos, acabou por ser a via por excelência da operacionalidade do garrote entretanto imposto. As ambiguidades e contradições que dão título a este trabalho, que mais não são e espelham as ambiguidades e contradições do discurso colonialista, encontram eco no discurso dos próprios colonizados. A revista da Liga expressa bem estas ambiguidades e contradições, se não da sua linha política, da de alguns dos seus associados. É claro que sempre se pode dizer que esses discursos correspondem a um tempo-espaço que acabou por ser determinante para a natureza dos mesmos, mas não é menos verdade que estas ambiguidades e contradições plasmaram a mentalidade de muitos angolanos, de tal modo que, ainda hoje é possível encontrá-las por via da cristalização dessas mesmas mentalidades. Mas o estudo sobre este(s) discurso(s), será objecto de um próximo trabalho.


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